A princesa e o príncipe lebre

(Conto popular espanhol)

Havia uma vez um homem que ia caminhando pelas estradas de uma cidade, com um cesto cheio das mais belas flores, gritando: “Quem quer comprar sofrimento? Quem quer comprar tristeza?”

Todos que ouviam isto, riam dele e ninguém comprava as suas flores, apesar de serem tão formosas. Pois, quem, depois de tudo, iria comprar sofrimento e tristezas, que já existem suficientes no mundo? Mas isso não preocupava o homem e ele continuava caminhando pelas ruas oferecendo sua mercadoria: “Quem quer comprar sofrimento? Quem quer comprar tristeza?

Dessa maneira o estranho vendedor passou diante do palácio do rei. A princesa escutou-o chamando, e cheia de curiosidade olhou pela janela. Quando viu as flores tão belas no cesto, decidiu que deveria tê-las e chamou-o. “Espere um pouco, bom homem, eu lhe comprarei as suas flores!”

Jogou-lhe uma moeda de ouro e mandou a sua donzela buscar as flores. Eram realmente muito belas; ninguém no palácio jamais havia visto flores desse tipo. Inclusive o jardineiro real sacudia sua cabeça, maravilhado, enquanto a princesa as plantava cuidadosamente em seu jardim. E a princesa estava tão encantada com elas, que ficou o dia inteiro no jardim, admirando-as.

Na manhã seguinte, quando voltou com sua donzela ao jardim, saiu, do meio das flores, uma lebre branca, tão encantadora que a princesa quis possuí-la, e disse a sua donzela: “Rápido, cace-a para mim!”

2

Mas o animalzinho encantado veio por si mesmo correndo para ela. A princesa amarrou uma fita em volta do seu pescoço para que não pudesse escapar e foi passeando com a lebre em volta do jardim do palácio. Quando por fim regressaram ao palácio e a princesa já estava cansada do passeio, a lebre soltou-se, de repente, e desapareceu com a fita.

A princesa ficou indignada por perder sua linda fita, mas mais desesperada ficou por perder sua lebre, tanto que, de tanta tristeza, não conseguiu dormir um só momento durante a noite.

Na manhã seguinte voltou a passear com sua donzela pelo jardim para ver as flores; e não é que estava ali a lebre? Ela veio saltando novamente entre as flores. Não tiveram que agarrá-la, pois acercou-se por si mesma. A princesa amarrou seu lencinho de seda em volta do pescoço da lebre para que não pudesse escapar, e depois foi passeando com a lebre por todo o jardim. Mas no caminho de volta para o palácio, a lebre livrou-se de novo, soltando o lencinho de seda e desaparecendo com ele.

A princesa ficou indignada por perder seu lindo lenço, mas mais desesperada ficou por perder sua lebre, e não fechou os olhos durante a noite toda de tanta dor. Na manhã seguinte foi diretamente com sua donzela ao jardim, e mais uma vez a lebre saiu saltando das flores. Outra vez acercou-se por si mesma da princesa. Desta vez a princesa amarrou o seu cinto em volta do pescoço da lebre para que ela não pudesse escapar e ficou o dia inteiro passeando com a lebre. Quando por fim estavam voltando ao palácio, pois estava ficando tarde, a lebre soltou-se de novo e desapareceu com o cinto.

A princesa ficou indignada por perder seu cinto, mas mais desesperada estava por perder sua lebre e não conseguiu dormir por um só momento naquela noite, de tanta tristeza. No quarto dia a princesa sentiu-se doente pelo grande desejo de possuir a lebre e estava tão fraca e tão infeliz que não conseguiu levantar-se da cama. Percebeu, então, quanto sofrimento e tristeza havia comprado com as flores. A princesa permaneceu doente em sua cama, e todos os doutores mais famosos vieram e examinaram-na. Depois de longas consultas, todos estavam de acordo que não havia mal físico nenhum na princesa, mas que sua alma estava doente de nostalgia.

Prescreveram-lhe passeios, distração, canção e danças, para que pudesse esquecer sua lebre branca. De perto e de longe chegavam músicos, malabaristas e contadores de histórias; em pouco tempo o palácio parecia uma feira. Mas todo esse movimento, essa distrações, todos os contos e histórias não conseguiram ajudar a princesa. Lá estava ela, pálida e triste, deitada sobre suas almofadas. E olhava com ansiedade para a distância, como se estivesse esperando por alguém.

Naqueles tempos, duas irmãs, já velhinhas, moravam no campo. Quando ouviram da estranha doença da princesa, uma das irmãs disse à outra: “Que pensas, irmã? Será que eu não deveria ir ao palácio e alegrar um pouco a princesa? Talvez se animaria se eu lhe contasse um conto de fadas.”

3

“Aposto que a princesa está esperando justamente por ti e teus contos de fadas. Todos rirão de ti” – respondeu sua irmã.

Mas isto não incomodou a velhinha, pensou que melhor seria tentar sua sorte. Assim guardou um pedaço de pão e um pouco de peixe assado num paninho e saiu.

Era um longo caminho até a cidade e a velhinha não era mais tão jovem assim, de modo que tinha que parar a cada tanto e descansar. Sentava-se à sombra de um árvore, de preferência sobre uma pedra de moinho, ao lado do caminho. E uma vez, quando estava sentada justamente sobre uma dessas pedras de moinho, aconteceu algo estranho. Enquanto levantava para continuar o seu caminho, de  repente, viu o solo abrindo à sua frente e saindo de lá um burro com duas sacolas de ouro sobre seu lombo. O burro era conduzido por duas mãos nas rédeas, mas não se via ninguém.

A anciã ficou assustada, com a boca aberta, pois tais coisas não haviam acontecido em nenhum conto de fadas que conhecia…, e eram muitos.

Mas como estava curiosa e querendo saber o que era aquilo, decidiu esperar que o burro voltasse; este não tardou muito. A velhinha agarrou firmemente uma das sacolas e assim foi com o burro para baixo da terra. A princípio tudo era escuro a sua volta, mas logo viu um campo onde brilhava a luz do sol, e no meio do gramado erguia-se um palácio magnífico; e o burro levou-a até lá. Na primeira sala do palácio havia uma mesa posta e quando a velhinha entrou e sentou-se à mesa, uma mão verteu sopa no seu prato, uma segunda mão pôs carne assada à sua frente e uma terceira serviu vinho; mas ela não podia conseguir ver as pessoas cujas mãos se moviam à sua volta.

Tendo comido o suficiente, foi à sala ao lado, e lá havia uma cama branca preparada e pronta. Uma mão sacudiu as almofadas, uma segunda abriu os lençóis e a terceira deu-lhe uma vela. Mas além das mãos não via nenhuma pessoa viva. A velha deitou-se na cama e adormeceu profundamente.

Na manhã seguinte, cedinho, levantou-se e novamente viu algo estranho: do jardim vinha correndo uma lebre branca que saltou diretamente numa tina cheia de água, que se encontrava no canto da sala. Quando a criatura saiu da tina, já não era uma lebre, mas sim um jovem príncipe de bela aparência. Este parou diante do espelho, pegou um pente e começou a pentear os cabelos, dizendo ao mesmo tempo com uma voz triste: “Oh, espelho! Não poderias dizer-me quem está com tanta tristeza por minha culpa?”

Depois voltou a entra na tina e saiu como lebre branca. A velha sacudiu a cabeça por longo tempo de tanto assombro. Regressou à mesma sala e tomou um bom café da manhã, logo depois esperou que aparecesse o burro e fosse para cima; pendurou-se então numa sacola e em poucos minutos estava em frente da pedra de moinho, no caminho que levava à cidade.

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Uma vez lá, foi diretamente para o palácio e disse aos guardas que queria animar a princesa com seus contos de fadas.

“Ela nunca escutou uma história como a que vou contar-lhe,” assegurou-lhes.

“Bem, vai e conte-a então”, disse o chefe dos guardas e deixou que entrasse.

Neste momento os pensamentos da princesa não estavam para contos de fadas. Deitada em sua cama, com a cabeça virada para a parede, não quis nem agradecer as saudações da velhinha. Mas a anciã não deixou incomodar-se e começou a contar a sua história.

Contou-lhe como viera caminhando para a cidade e estivera sentada sobre uma pedra de moinho quando, de repente, a terra se havia aberto; e lhe contou como havia ido com o burro para baixo, diretamente a um palácio subterrâneo e que ali, irás crê-lo!, havia visto uma lebre branca.

No momento em que a anciã mencionou a lebre branca, a princesa ficou alegre e quis saber o que acontecera depois. Assim a velhinha teve que continuar contando sobre a lebre que havia saltado numa tina de água, transformando-se num jovem príncipe de bela aparência.

“Tenho que ver isto por mim mesma”, exclamou a princesa e saltou rapidamente fora da cama como se nada tivesse acontecido com ela antes.

No dia seguinte a velha conduziu a princesa e a sua donzela até a pedra de moinho no caminho. Ali esperaram que o burro com as sacolas de ouro aparecesse e desceram com ele para baixo da terra.

A princípio tudo estava escuro em volta delas, mas em seguida viram um campo brilhando na luz do sol, e, no campo, um palácio. No lugar, inúmeras mãos estavam trabalhando muito, abrindo portas, servindo convidados, mas não se via a quem pertenciam. Então a anciã, a princesa e a donzela andaram por todo o palácio e em nenhum lugar puderam ver uma alma viva. Quando entraram na última sala, as três gritaram de susto, pois jazia ali uma figura morta, meio lebre, meio homem.

O coração da princesa encheu-se de compaixão pela figura morta ali, tão abandonada, sem uma flor sequer, nem uma vela, nem uma oração pela salvação de sua alma. Ela se acercou, pôs uma flor de seu cinto sobre o peito daquele ser, acendeu uma vela e ajoelhou-se para rezar uma oração.

Mas nem havia sequer pronunciado a primeira palavra, o corpo moveu-se e voltou à vida. Em frente à princesa estava um jovem e belo príncipe que, levantando a cabeça, olhou em seus olhos.

5

Com o príncipe, todo o palácio voltou à vida. Por todas as partes havia gente correndo ocupadíssima, para cima e para baixo. O príncipe lebre ajoelhou-se em frente à princesa e disse: “Obrigado, bela jovem! Com a flor, a vela e tua oração quebraste o malvado encantamento que estava sobre mim e todo o meu país. Como posso recompensar-te?”

Então conduziu-a através do palácio inteiro e mostrou-lhe todos os seus tesouros dizendo que podia pegar o que quisesse. A princesa nunca havia visto tais riquezas nem no palácio de seu pai, mas ela não gostou de nenhuma tanto quanto gostava do próprio jovem príncipe. Ela ficou admirada com as maravilhosas salas e quartos que agora estavam cheios de serventes e cortesãos.

“Por que estão tão ocupados, príncipe?”, ela lhe perguntou.

“Estão preparando tudo para o meu casamento”, respondeu o príncipe tristemente.

Então a princesa também sentiu como uma punhalada de dor, pois seu coração já havia sido tocado por este belo jovem. E o príncipe continuou:

“Oh, tu, a mais doce das jovens, isto está escrito nas estrelas que depois que meu encanto fosse quebrado, tenho que casar-me com aquela cujo destino me comprometeu. Mas quando olho para os teus olhos, queria que não fosse assim.”

“Quem, então, terá que casar contigo?” perguntou a princesa, sentindo como seu coração de novo se dilacerava de tristeza.

“Tenho que casar-me com aquela à qual estive atado três vezes durante o meu encantamento”, respondeu o príncipe.

“Mas tu estiveste atado três vezes a mim”, exclamou a princesa alegremente. “Eu te amarrei com uma fita, um lenço e um cinto.”

“Então tu serás a minha esposa?!” gritou o príncipe feliz.

Cheia de alegria a princesa deu-lhe sua mão e seu coração. O príncipe lebre pegou sua mão e caindo de joelhos prometeu dar-lhe todo o seu amor.

Após três dias celebraram o casamento e desde esse momento o jovem casal viveu feliz no palácio do príncipe. E assim a princesa nunca mais teve que passar sofrimentos e tristezas por ter comprado o cesto de flores. A velhinha ficou com eles e amavam-na muito, pois ela havia lhes trazido a felicidade.

Mas um dia a velhinha quis voltar ao país de seu nascimento, desejava ver novamente seu pobre campo e sua irmã.

O príncipe e a princesa tentaram convencê-la a ficar com eles, mas vendo a saudade que sentia, enviaram-na para sua casa numa carruagem dourada cheia de presentes.

10 respostas para A princesa e o príncipe lebre

  1. Adriane Bernardino disse:

    Lindo conto, na primeira noite nem terminei a minha filha adormeceu antes de chegar na metade, ja hoje terminei e ela amou…
    essa historinha deveria ter em desenho asssim como muitas outras histórias.

  2. Keddylly disse:

    Eu gostei muito da história mas fiquei um pouco curioza pra saber se a velhinha iria voltar ou o que aconteceu com o vendedor de flores ???

  3. Agata disse:

    Ameia a historia legal
    Bem divertiada para ler e fala sobre o amor da princessa que o ouro nao e mais valioso que o amor por ti e por os outros

  4. Teresa Giovanna Silva disse:

    Minha neta amou a historia! Obrigada! 😃

  5. caroline ribeiro alves disse:

    É BONITO MAIS, PORÉM GRANDE DEMAIS..

  6. Lory disse:

    Ai ameii! que lindo! xonei!

  7. Joany Ramos Ponteres disse:

    Gostei é uma História muito linda e encantadora

  8. nelma benitez disse:

    É UMA HISTORIA MUITO LINDA, AMEI..

  9. clementina disse:

    Achei encantadora esta historia nunca ouvira antes,minha filha ate adormeceu enquanto, eu li-a para ela

  10. tiana disse:

    é a mais linda história infantil que já li em toda minha vida

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