Vivenciar, reconhecer e compreender os temperamentos

Autor: Helmut Eller

(Extraído de “Pedagogia Waldorf – Periódico nº 19”, Fevereiro de 2005, FEWB)

O cumprimento

Um professor de classe está à porta de manhã. Recebe seus alunos, estende-lhes a mão; em seguida, eles vão a seus lugares, tiram as mochilas, sentam-se e esperam o início da aula. Que aspecto teria esta cena, que eu gosto de representar às pessoas presentes em palestras ou em seminários, para a melhor compreensão dos quatro temperamentos em crianças diferentes?

Com passo firme vem o primeiro! Vem diretamente em sua direção, pega sua mão e a aperta! Crava o olhar em meus olhos! Curto e decidido, isto basta! Diz, alto e perceptível: “Bom dia, senhor Eller!!!”. Agora, ao lugar! Chegou! Abaixa mochila! Rápido! A alça novamente arrebentada… A mãe já a costurou inúmeras vezes – ela não sabe costurar, ela é a culpada… Agora a mochila é empurrada sob a mesa. “Preciso esperar!”, “Ainda!”, “Não gosto…”, “Amanhã chegarei mais tarde!”…

Quão diferentemente vem a segunda criança pelo caminho! Passo calmo, vagaroso, sem qualquer agitação, amável, sorridente, quase teria passado por seu professor – que bom que ele lhe estendeu a mão. Confiante, coloca sua mão na dele, sem esforço, bem solta (ele com certeza vai segurá-la)… Cumprimenta, amável e tranquilamente, com o olhar sereno. Agora vai até o lugar, ainda sorrindo. Deixa a mochila deslizar pelas costas, ela cai no chão: “Pena, hoje não pude pegá-la… Às vezes sou mais rápida, às vezes consigo…”. Então senta-se. A mochila é pendurada num gancho lateral: “Isto não me cansa tanto. É muito mais trabalhoso enfiá-la debaixo da mesa…”. Ah, como é bom esperar pelo início da aula!… O professor de classe vem e pergunta:

– Como vai você?

– Bem!

– Você gosta de vir à aula?

– Sim…

– É bonito aqui?

– Sim, tão aconchegante…

A terceira cumprimenta a cada dia de maneira diferente. Hoje encontrou um colega no caminho, está conversando alegremente com ele e aproxima-se da sala de aula. Rapidamente ainda diz: “Você é meu novo amigo”. Então dirige-se alegremente ao professor, rapidamente pega sua mão, olha breve nos olhos dele cumprimentando-o e passa o olhar de alto a baixo a fim de descobrir algo de novo nele, espontaneamente: “ Puxa, o senhor está de gravata nova, que bonita! E que sapato bonito! “. Ao mesmo tempo, ocorre-lhe mais algo que queria dizer: “ Mamãe mandou lembranças e … papai está melhor, pois estava tããããão doente… e… meu coelho, quase que morre, mas logo cuidei dele e agora ele está bem!”.  Agora vai depressa ao lugar, mas ainda não se senta. Abre a mochila, tira os convites de aniversário e os distribui rapidamente, pois o professor ainda não começou. Aniversaria daqui a três meses, mas já não agüenta mais esperar. “ Queria convidar a classe inteira, pois gosto de todas as crianças… Pena que Mami acha que eu deveria convidar apenas a metade da classe, que isto bastaria. Foi difícil escolher os certos!”. Agora vai rapidamente para o lugar, “ele quer começar!”.

A quarta criança está em pé e espera até que o colega da frente finalmente termine. Mantém certa distância, ouve tudo o que aquele tem a apresentar e se preocupa seriamente.

“Quanta coisa que o João tem para contar! Parece que não acaba nunca. Não, eu não gostaria de transmitir lembranças da mamãe. Oh, seu pai esteve doente, que coisa horrível. Se meu pai adoecesse, ele nem poderia ir ao trabalho. Seu coelho quase morreu… Se meu porquinho-da-índia estivesse doente, eu seguramente ficaria em casa e nem iria querer vir para a escola. Coitado do João, deve ter sofrido horrivelmente! Agora ele terminou.”

Com passo comedido, ele se dirige ao professor. A mão é estendida com cuidado e, ao olhá-lo e cumprimentá-lo calma é seriamente, surgem-lhe pensamentos e perguntas: “O senhor Eller também me olhou tão seriamente… Será que ele não está bem? Seguramente também tem pena do coelho”. Cuidadosamente a criança se aproxima de seu lugar.

“Que bom que hoje eu não fui empurrado por esses garotos malcriados, que não conseguem obedecer!”

A mochila é empurrada cuidadosamente para debaixo da mesa, para não sofrer um arranhão!

“O que João está fazendo entrementes? Ele ainda anda por aí. Isto eu não faria. Oh, ele está distribuindo convites para seu aniversário! Quem será que ele convida? Aquele ali, eu não convidaria. Sim, esse eu também convidaria. Será que ele me convida? Se não, eu também não o convidaria mais! Oh, João, obrigado, que bom que eu também posso ir! Pronto, a aula vai começar. Tomara que João consiga chegar a tempo em seu lugar!”

Contrariamente a isto comporta-se a segunda criança, uma fleumática. Chega sonhadora, sorridente e mantém este estado também durante o cumprimento e até chegar ao seu lugar. Tudo aceita com afeto, se possível aconchegantemente. Serenidade e tranquilidade são as suas grandes forças. Ninguém é ofendido com palavras. Goza de um estado no qual pode sentir-se bem, e não gostaria de mudá-lo. Quando a fleuma é intensa, o interesse pelo mundo que a cerca pode diminuir cada vez mais. Desinteresse que beira a estupidez ou a imbecilidade são as conseqüências. Conquistar maior mobilidade e suscetibilidade interior é a tarefa do adulto fleumático.

A terceira criança, uma sanguínea, chega alegre, de coração aberto, entra conversando vivamente, conquista um novo amigo (ela já tem tantos…) com seu espírito aberto; descobre algo novo no professor, lembra-se de muitas coisas (o que expressa impetuosamente), corre e distribui convites. O sanguíneo ama o mundo e as outras pessoas e, de preferência, abraçaria a todos, ouviria e veria tudo, acha até uma pena não ter olhos atrás. A entrega amorosa à vida social, à mobilidade interior e à mobilidade exterior são as suas forças. Na intensificação da sanguinidade fala-se de volubilidade (inconstância) e, em caso extremo, de loucura (ele constrói castelos no ar!). Os adultos sanguíneos impõem-se como tarefa encontrar a força e a calma interior.

A quarta criança, uma melancólica, espera, observa, preocupa-se seriamente, gosta de viver em seu mundo interior e se relaciona com cuidado com o mundo e com os outros – é assim também no cumprimento. Tem grande pena quando João fala do sofrimento de seu animalzinho. Sua força é refletir seriamente e ter compaixão (sofrer junto). Quando este temperamento se intensifica, pode-se observar a cisma, a apreensão ou a melancolia, até chegar à melancolia profunda e à hipocondria. Aprender a transformar em ação exterior os seus pensamentos e sentimentos de compaixão: esta é a tarefa do melancólico adulto.

Os desenhos

Imaginemos a seguinte situação de aula: o professor anteriormente havia contado para o quinto ano sobre os hallig (ilhas sem diques na costa norte da Frísia). Ele descreveu com plasticidade como os homens lá enfrentam uma forte tempestade do mar. Então pediu para que fizessem desenhos com o tema “tempestade em Hallig”. Neles se espelham as seguintes características:

O primeiro desenho foi feito por uma menina. Transponhamo-nos para a sua forma de desenhar. Ela começou no verso! Desenhou o monte levantado pelas mãos dos Homens (Warft, elevação acima do nível do mar onde os pescadores constroem suas casas). Muito grande, grande demais! Virar a folha! Mais uma vez o Warft, calcando fortemente o lápis de cor! Assim, este é bem verde! Agora uma casa forte em cima do Warft! Tijolos e traves! Ai, esqueci-me das janelas! Não faz mal, desenho por cima dos tijolos e traves! Ai, esqueci-me das janelas! Não faz mal, desenho por cima dos tijolos! Esqueci-me da porta – fica atrás da casa! Teto forte de palha! Agora as ondas, em todas as direções, e uma atinge a casa! Agora, o céu azul-escuro! Pára tudo, existem também nuvens! Portanto, cobrir o azul com preto! Ainda há relâmpagos! Traçar com amarelo uma linha ziguezagueda no azul dá verde! Como, relâmpagos verdes? Impossível! Passar vermelho por cima! Agora dá, ainda falta o nome no verso – enorme, atravessando o primeiro desenho. Sem dúvida, uma colérica!

Tentaremos agora nos colocar sob o ponto de vista de um sanguíneo, representar e vivenciar as coisas da sua maneira. O que se passa com ele? Na frente precisamos ver a água (pois é uma ilha…). De água também necessitam os Homens… Eles recolhem água da chuva (a água do mar é salgada)… Portanto, um poço (que é um lago, um Feding – ele esqueceu), este também precisa de uma roldana para puxar… Atrás, o Warft em tons diferentes de verde… Agora a casa… Muitos caibros finos e tijolos pequenos, janelas azuis, violetas, vermelhas (afinal, gostamos de enxergar o que acontece lá fora!), uma porta amarela … Agora o telhado (o beiral da casa é tão fino e longo que dificilmente poderia sobreviver a uma tempestade…). E uma chaminé grossa (ar é o seu elemento)… Diante da casa, uma escada leve, um banco estreito… E ainda um Koog (pedaço de terra conquistada do mar, cercada por um dique). Ele percebe que lhe parece estranho: é melhor que eu escreva lá a palavra, caso contrário não será reconhecido… Agora uma casinha pequena e vermelha. A folha estava inclinada ao desenhar, e quando voltou à posição normal… Puxa, ficou inclinada! Isto não é grave… mas está bem, sozinha no Hallig? Não, eu faço uma do lado direito… Eu posso acenar para lá. E se, de lá, alguém quiser me visitar, poderá prender seu barco na Duckdalben (os postes à direita, na frente)… Agora vou desenhar a água… Muitas ondas, outras, mais outras… Uma sobe até a ilha (como um delicado cacho de cabelo). No fundo, navios… Um barco a vela em plena posição de Takelage (na tempestade)… Embaixo há vigias (para olhar para fora quando se está sob o convés)… Raios caem em barcos com motor… Isto é divertido… Em cima, no meio, ainda há lugar… Dizem que há raios deitados – vou desenhá-los lá.”

(continua com o Informativo Moara nº30 – 28/10/2010. Aguarde.)

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